sábado, 10 de agosto de 2013

3 Clipes e 1 Curta - O evento e uma análise crítica

Como eu disse no post anterior, estive presente na estreia do projeto 3 Clipes em 1 curta e prometi fazer um post sobre a cobertura do evento. Demorei um pouco para escrever para conseguir elaborar um texto a altura da grandiosidade das animações que pude testemunhar no dia 30 de julho.
Primeiramente vou falar um pouco sobre o evento, depois irei fazer uma análise crítica sobre cada clipe mostrando sua relação com a música e com o álbum de cada artista em questão.
O evento foi realizado no Espaço Itaú de Cinema (Shopping Crystal), era esperado um público razoável, mas com o sucesso de outros projetos da Cia de Canalhas e a divulgação nas redes sociais, matérias na Gazeta do Povo, Revista Rpc, entre outros, o hall ficou cheio.
Já na fila, fomos recebidos pelo nosso amigo Lucas Fernandes e seguimos para o hall, onde fomos servidos em grande estilo, desde já parabenizo a organização.

Fotos: De Volta Para o Vinil
O evento contou com a ilustre presença de Fernanda Takai, uma pessoa muito amável e simpática, além de uma excelente cantora, compositora e instrumentista.


Fotos: De Volta Para o Vinil

No hall, estava a maquete utilizada para fazer o clipe do Arnaldo Antunes, ficaram excelentes. as miniaturas foram feitas por Fabiano Fausto.


Fotos: De Volta Para o Vinil

Depois de muitas fotos e entrevistas, entramos na sala de cinema. A apresentação do projeto ficou por conta de Cadu Scheffer do famoso canal curitibano Tesão Piá.
Na sequência Carlon Hardt e Lucas Fernandes falaram um pouco sobre o projeto 3 Clipes e 1 Curta.

Foto: http://3clipes1curta.com.br/ - Camila Ferraz
Foto: De Volta Para o Vinil

O primeiro clipe exibido foi  “Pra Não Esquecer”, do álbum do Fundamental (2012), parceria de Fernanda Takai com Andy Summers. Nessa canção, como em muitas outras, Takai tem a habilidade de imprimir certa doçura melancólica em músicas pop, bem como coragem e esperteza de se aventurar na Bossa Nova, como vimos no seu primeiro e excelente álbum solo “Onde Brilhem os Olhos Teus”.


No álbum lançado em 2007, sob a direção artística de Nelson Motta, Fernanda Takai seduziu o universo pop brasileiro ao fazer luminosa abordagem do repertório de Nara Leão (1942 - 1989). Bisando o encanto desse disco que a conectou com o mundo da MPB, em especial com a Bossa Nova, a vocalista apresenta - cinco anos e um DVD depois - outro disco dissociado do grupo mineiro que a projetou na primeira metade dos anos 90. Gravado em Los Angeles (EUA), sob a direção artística de João Augusto, “Fundamental” é álbum assinado por Takai com Andy Summers, ex-guitarrista do trio inglês The Police. A inusitada ponte que liga a cantora brasileira ao músico britânico foi erguida por Roberto Menescal, com quem Summers gravou o DVD “United Kingdomof Ipanema (2010)”, imerso nas mesmas águas bossanovistas que banham “Fundamental”. O álbum é formado por onze músicas inéditas compostas por Summers, sendo que as cinco primeiras do CD foram vertidas para o português por John Ulhoa, Zélia Duncan e/ou pela própria Takai. Já em rotação nas rádios do segmento MPB, a canção “Fundamental” (Andy Summers em versão John Ulhoa e de Fernanda Takai) se destaca ao lado de “Pra Não Esquecer” (I Remember - Andy Summers em versão de Zélia Duncan), faixa que concilia a sutil batida de Baião com a suavidade da Bossa.
No segundo trabalho solo, Takai faz uma boa parceria com Summers, que aparentemente se inspirou na doce voz de Takai para compor as 11 faixas do álbum. Summers, que não aparecia desde o fim do The Police, escolheu se aventurar pelo avant-garde, trabalhando com Robert Fripp e lançando trilhas sonoras e discos influenciados pelo jazz e pelo new age, confesso não conhecer sua carreira solo, mas na maior parte do álbum ele opta por uma abordagem clássica de trabalhos com “Jazz Samba” e Bossa Nova. O álbum é permeado por uma batida leve e tranquila e a guitarra serpenteando elegantemente como manda o figurino, além da bela voz da Fernanda que já nos desarma ao remeter territórios familiares.
O ponto alto desse álbum é certamente, a canção “Pra Não Esquecer”. A melodia e os arranjos formam uma canção coesa, criativa e destaca a distinta e genial capacidade da Takai em dar diferentes personalidades, emoções e nuances às canções.
Quanto ao clipe, posso dizer que os diretores foram geniais em aplicar a trabalhosa técnica de rotoscopia, baseando-se no projeto gráfico já desenvolvido na arte da capa do álbum.  A adaptação do personagem principal comum para o contexto da canção é perfeita, uma vez que a letra ajuda a construir um ambiente melancólico e solitário em que os personagens são inseridos. Além disso, as cores, nuances acinzentadas, as texturas aplicadas, ajudam a criar esse clima sombrio em que ações cotidianas vão acontecendo.
Foto: http://3clipes1curta.com.br/ - Camila Ferraz
Porém, é notável que o personagem comum a todos os clipes, nesse funciona como coadjuvante, pois o principal é retratado na figura de uma mulher, que apaixonada, faz de tudo para chamar a atenção dele, mas não é correspondida. Apenas no final do clipe, ao fechar a janela o personagem comum transmite pelo olhar uma ideia de que também gosta da vizinha da frente.
Destaco também a excelente atuação de Cadu Scheffer e Alyssa Aquino, para produzir a sequência de imagens para a elaboração da Rotoscopia.
Para quem não sabe, a rotoscopia é definida como técnica de animação na qual é utilizado como referência um modelo vivo, cada frame (quadro) filmado serve para desenhar o movimento do que será animado. As imagens de cada frame podem servir de referência para a criação do desenho por completo, como também pode servir para criar parte dele, deixando um pouco do que foi filmado.

O segundo clipe exibido, foi “Bola de Meia, Bola de Gude”, clássico de Milton Nascimento, do álbum Miltons (1988).


Milton, como já sabemos, é um grande cantor e compositor brasileiro, reconhecido mundialmente como um dos mais influentes e talentosos cantores e compositores da Música Popular Brasileira.
Na belíssima canção “Bola de Meia, Bola de Gude”, a criança é a personificação da esperança, da persistência e da inocência. Quando o eu lírico cita somente os momentos críticos de sua vida, a criança desperta e transmite como o adulto pode enfrentar as adversidades, olhando o mundo com a ótica do amor, da generosidade e da sutileza.
A musica e o clipe feito com animação 2D e colagem, nos trazem força para encarar a vida adulta e transmitem uma energia positiva que vem das experiências positivas e significativas que vivemos no período da infância. Além disso, nos fazem refletir e nos fortalecem para não perder a pureza, apesar dos desafios que encontramos na vida.
Foto: http://3clipes1curta.com.br/
O menino, mencionado na música e no clipe, é a lembrança que o próprio personagem tem da sua infância e que o fortalece na vida adulta, dessa forma, o menino não é uma pessoa física propriamente dita. Isso fica claro no trecho:
“Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão”...“Há um passado no meu presente”.
É como desejar um mundo onde reine a bondade, respeito, amor e fraternidade com a alegria e esperança próprias de uma criança. Isso pode ser percebido nas situações inusitadas do clipe, como o menino trazendo a folha com a formiga ou brincando de dirigir, pulando na poça d'água, entre outras cenas. Ainda na animação percebemos uma evolução cronológica do personagem. Nas cenas finais ele aparece já velho fazendo as mesmas brincadeiras de quando era criança.

E o último clipe mostrado foi a música “A casa é sua” do álbum Iê-iê-iê, nono disco solo de Arnaldo Antunes. Neste disco, Arnaldo volta as origens e mescla uma sonoridade pop com Iê-Iê-Iê; ritmo o qual fez o artista se consagrar na banda de rock Titãs.


Depois de sua saída dos Titãs em 1992, por divergências musicais, Arnaldo buscou novos ares fazendo projetos e parcerias diversas, sendo que a mais notória delas é Os Tribalistas de 2002, com Marisa Monte e Carlinhos Brow. Mas falar de Arnaldo Antunes sem mencionar sua carreira solo é um erro, já que em seus nove discos de estúdio o cantor vem se superando cada vez mais.
Foto: http://3clipes1curta.com.br/
Desde 1993, Arnaldo vem nos mostrando ótimos discos como Ninguém (1995), Um som (1998) e Qualquer (2006), mas em 2009 o cantor nos apresentou uma interessantíssima viagem aos tempos da Jovem Guarda com o álbum "Iê Iê Iê", um registro que segundo Arnaldo, sabia que um dia iria acabar fazendo, pois sempre teve vontade de resgatar a sonoridade desse estilo em algum momento.
Com a excelente produção de Fernando Catatau e acompanhado do seu fiel escudeiro Edgar Scandurra (Ira!) na guitarra, violões e vocais, Arnaldo chamou nomes de peso da MPB como Carlinhos Brown, Ortinho, Marcelo Jeneci, Branco Mello e Marisa Monte para fazer esse excelente disco. O álbum é regado à um Rock 'N Roll dançante e convidativo que faz qualquer amante da Jovem Guarda relembrar os tempos áureos do movimento dos anos 60, base para a formação de toda a nossa identidade musical atual.
Destaques para a faixa título, "A casa é sua", "Longe", "Invejoso", "Envelhecer", "Aonde você For" e "Sua menina" que foi uma faixa composta na época em que Arnaldo participava do Titãs assim como as canções "Um Quilo", "Sim ou Não" e "Luz Acesa".
Apesar da revisita, “Iê Iê Iê” não é um álbum de releituras. Traz as referências da Surf Music, trilhas dos filmes de faroeste, Rita Pavone e outras manifestações da época, mas o artista vai além ao dar uma linguagem mais contemporânea, com letras inéditas que tentam incorporar novas questões e pontos de vista ao gênero.
Mas o grande diferencial de “Iêiêiê” é a pegada mais vibrante, diferente dos dois últimos trabalhos de sonoridade mais leve, em que usava apenas instrumentos de corda e piano. A banda é a mesma que o vinha acompanhando, com Chico Salem (violão e guitarra), Betão Aguiar (baixo), Marcelo Jeneci (teclados) e o guitarrista Edgard Scandurra, parceiro de longa data. No entanto, para dar a injeção de ânimo, Arnaldo convidou dois novos talentos que vem aquecendo a música brasileira nesses anos. Curumim para a bateria e outros instrumentos de percussão, e Catatau, da banda cearense Cidadão Instigado, que produziu o disco.
Grande parte do mérito pela produção se deve ao excelente trabalho de conciliar a voz peculiar de Arnaldo, de timbre bem grave, numa sonoridade menos lenta e mais agitada, em que se conseguiu ser acessível sem perder a poesia.
Feito com a técnica de Stop-motion, o clipe busca de uma maneira de certo modo cômica, mostrar o drama do personagem que sofre de solidão, pois aguarda o retorno de uma pessoa muito amada. Isso fica evidente no trecho

"A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora".

Além disso, na vida do personagem da animação tudo dá errado e vida fica monótona, isto é,  as coisas não voltaram a ser como eram enquanto essa pessoa amada não voltar.

Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar

Não me falta parede
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar

Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar

Arnaldo Antunes, mesmo imergindo em referências dum passado de mais de 40 anos, voltou do mergulho mais jovial, que mesmo com algumas canções ingênuas, mas belas, é difícil não acompanhar as músicas num cadenciado estalar de dedos ou mexer dos pés.
Os diretores foram geniais em mostrar esse aspecto, usando no cenário móveis da década de 60 e 70, abordando exatamente esse retorno de Arnaldo Antunes as músicas dançantes da época da Jovem Guarda.
O negócio todo está realmente resumido no título. Arnaldo resolveu fazer um CD realmente “Iê-Iê-Iê”, como ele mesmo afirma no texto em seu site. O que quer dizer isso depois de ouvir o material? Que ele fez um álbum metalinguístico: em certos momentos ele tanto fará um Rock acessível, como refletirá sobre o Pop rasgado. Arnaldo sabe fazer refrões sem falar bobagem e isso é ótimo nos dias de hoje. Tem gente com medo de refrão, com medo do popular. Ele não tem esse temor e traz pérolas românticas e saborosamente grudentas .
O mais legal é justamente encontrar pouco a pouco, em audições mais atenciosas, as sutilezas de timbres, arranjos que foram elaborados para dar uma ambiência vintage a tudo isso.

Após a exibição dos três clipes, teve um bate-papo bem descontraído entre o público que lotou a sala de cinema, os diretores e Fernanda Takai, intermediados pelo "mestre de cerimônias".

Foto: http://3clipes1curta.com.br/ - Camila Ferraz

No final do evento ainda sobrou tempo para tirar algumas fotos com Fernanda Takai.


Foto: De Volta Para o Vinil

Enfim, posso dizer que os diretores produziram um excelente trabalho de pesquisa para montar o roteiro, os personagens, figurinos, cenários, que pudessem interligar as três canções dentro de um mesmo contexto. O mais interessante é que essa ligação entre as animações não é feita apenas pelo personagem único ou até pelo cenário comum (casa, carro, quarto, etc), mas também pelos detalhes musicais aplicados nesses mesmos cenários. Para entender esse aspecto é necessário se atentar aos pequenos detalhes de cada animação. Levantando em conta algumas referências musicais presentes nas animações pude constatar que:
No clipe “Pra Não Esquecer” aparece um quadro com a capa do álbum Clube da Esquina de Milton Nascimento, além de outros álbuns de Fernanda Takai. Também podemos notar a frase pichada no muro "O solitário não quer solidão", trecho da música "Bola de Meia, Bola de Gude".
Além disso, temos também uma referência ao filme Lost in Translation (no Brasil: Encontros e Desencontros), é o segundo filme de Sofia Coppola, filha do realizador Francis Ford Coppola, realizado em 2003.
Resumidamente o filme conta a história de Bob Harris: um ator de meia-idade que se encontra em Tóquio para realizar sessões fotográficas publicitárias. Está casado, mas o seu matrimônio entrou numa fase aborrecida: Harris sente-se melancólico com toda rotina sem sentido que tornou-se sua vida. No hotel, conhece Charlotte, a jovem esposa de um fotógrafo que se encontra sozinha em Tóquio, pois o seu marido está a trabalhar durante uns dias noutras cidades do Japão. Charlotte também se sente triste, não consegue encontrar algo em que possa se apoiar, algo que lhe dê sentido de viver. Juntos, começam a repartir as horas que não passam. Entre os dois começa a se estabelecer uma relação de compreensão mútua, que se vai afirmando à medida que passam os dias.
O nome original do filme, Lost in Translation (em português, Perdido na Tradução), refere-se a dificuldade das personagens de serem compreendidas na cidade de Tóquio, mesmo nos momentos em que estão na companhia de tradutores. "Lost in Translation" trata-se de uma expressão americana que representa a parte cultural de palavras ou frases que se perde quando é traduzida para outra língua. Mesmo que a tradução seja feita corretamente.
Aspectos ainda mais culturais podem ser uma barreira enorme para a comunicação entre povos. Por exemplo o fato de um japonês considerar que não conseguir fazer uma tarefa é uma desonra é em muitos casos incompreendido pela cultura ocidental.
No  clipe "Bola de Meia, Bola de Gude", assim como nos outros dois clipes, o artista também aparece em alguns momentos do clipe.
No clipe "A casa é sua" de Arnaldo Antunes, as referências musicais e cinematográficas são ainda mais evidentes, como o pôster na parede do álbum e filme de 1964 dos Beatles "A Hard Day's Night" (no Brasil: Os Reis do Iê, Iê, Iê), fazendo uma ponto em comum com o nome do álbum de  Arnaldo Antunes.
Outro aspecto importante é o pôster do filme "Os incompreendidos" de 1959. O filme conta a história de Antoine: um pré-adolescente parisiense desprezado pela mãe biológica, negligenciado pelo apático padrasto e apresentando rendimento escolar abaixo das expectativas de seu autoritário professor. O seu comportamento, no entanto, é o reflexo de um inocente jovem sôfrego pelo carinho e atenção dos pais. Ele não é um rebelde ou problemático; é um garoto com dúvidas e frustrações, não tão diferente de outros da mesma idade, fascinado pelas infinitas possibilidades e aventuras que Paris lhe oferece, e dotado de fôlego para vivê-las intensamente. Em linhas gerais, esta é a história de Os Incompreendidos, um dos filmes inaugurais da Nouvelle Vague e também um fiel recorte da juventude de seu diretor François Truffaut.
Ainda temos o aparecimento de álbuns dos Beatles, Pink Floyd, Titãs, Milton Nascimento, Pato Fu e até mesmo do The Police.
Esses pequenos elementos, fora alguns que eu não percebi (talvez você consiga perceber num olhar mais atento), enriquecem ainda mais as animações e conseguem interligar as canções, cumprindo o objetivo do projeto que está bem evidenciado no nome "3 Clipes e 1 Curta", ou seja, três músicas e uma história.
Parabenizo mais uma vez os diretores Carlon Hardt e Lucas Fernades e a produtora Marcia Kohatsu, e toda a equipe que trabalhou no projeto. Espero que ele obtenha muito sucesso nos festivais de animação, pois como eu disse no post anterior " é um projeto com uma produção excelente e impecável, que mostra que ainda tem pessoas preocupadas em pensar, produzir, divulgar e trabalhar com músicas nacionais de qualidade de artistas renomados da MPB."

Foto: http://3clipes1curta.com.br/ - Camila Ferraz

Confira os vídeos do making-off e as reportagens no site http://www.3clipes1curta.com.br/ e curtam a página no facebook.
Assista a matéria da RPC TV.

O filme é uma realização do estúdio visual especializado em produzir materiais para o meio musical Cia de Canalhas. Teve como responsável pela captação integral do projeto a empresa Sunset Cultural e tem patrocínio integral da Tradener – Comercialização de Energia. A produção é assinada por Marcia Kohatsu e os três clipes têm a direção de Carlon Hardt e Lucas Fernandes.

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