segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Conexões 03 | Lado A Discos bate-papo com Cabes MC

Para a terceira matéria da seção Conexões, uma entrevista feita pelo nosso parceiro Neigmar Vieira, do Lado A Discos, com Cabes MC, um dos principais expoentes da cena Hip - Hop de Curitiba.

Nei: 1 - Não pude deixar de notar os Lps no clipe “Não nasci pra ensinar”. Como é a sua relação com o vinil?
Cabes MC: Salve Neigmar, e todo mundo que acompanha o Lado A Discos, primeiramente é um prazer contribuir com vocês que acreditam que cultivar o vinil é manter atual e viva a história da música. Então, minha relação com vinil vem desde criança, com a coleção de vinis dos meus pais, que apesar de não serem músicos ou artistas, sempre gostaram de ouvir música boa em casa. Quando criança desenhei e risquei muita capa de disco deles, e quando ganhei meus primeiros LPs, aqueles de histórias pra criança e cantigas de rodas, comecei a cultivar minha paixão pelo acetato. Mais adolescente, que comecei a realmente prestar atenção na “música” e o quanto ela me inspirava. Aí, partindo dessa pequena coleção em casa, comecei a procurar sonoridades que mais me agradavam e comecei por mim mesmo buscar em sebos os nomes dos músicos que encontrava nos discos que já tinha. Isso me ajudou muito a entender e de forma independente estudar nomes de músicos e grupos que me identificava mais. O RAP me aproximou muito dessa cultura VINIL também, já que é nos vinis que estão a maioria das “matérias-primas” dos BEATS, os nossos amados “samples” (risos).

Cabes MC - Fotos: Marcel Favery
Nei: 2 - Reparei na fotografia dos seus vídeos. Como é o processo de criação? Você acompanha, dá palpite ou deixa tudo para o diretor de fotografia?
Cabes MC: Cada vídeo é um processo único de criação. Procuro não ser “ditador” de regras nesses processos colaborativos, e basicamente quando eu tenho uma idéia de vídeo para a música proposta, levo ela pra minha equipe de produção, e junto com eles, busco deixar aberto para o pessoal dar idéia e opiniões, e encontrar uma “sintonia fina” do melhor “pra todos”. Confio muito no pessoal que trabalho, então sei que buscam o melhor pra cada projeto, tanto na produção executiva que normalmente fica com meu irmão Luis Cilho, seja com Fred Freire (diretor do 1º clipe), quanto Marcel Favery (diretor de fotografia do 2º clipe), ou com quem tiver a melhor idéia.

Nei: 3 - Em uma entrevista você comentou sobre o “Criolo”, que ele misturou vários estilos, mas que manteve o discurso do Rap. Qual é o discurso do Rap, no seu ponto de vista?
Cabes MC: Na minha opinião, o discurso do RAP é uma linguagem das ruas, partiu de um protesto social, das minorias e dos menos favorecidos, e continua até hoje, porém atualmente abrange protestos pessoais, indignações de todas as formas, e mais do que isso, se tornou uma linguagem de expressão que pode ser utilizada por qualquer pessoa que se identifique com a linguagem das ruas, abordando temas diversos e aleatórios. E isso é o que pra mim ele representa, uma linguagem urbana que atinge atualmente todas as classes sociais e idades, servindo muito pra romper barreiras, preconceitos, e aproximar as pessoas de uma maneira mais realista e humana, no meu caso.

http://toquenobrasil-uploads.s3.amazonaws.com
Nei: 4 - Como é fazer Rap em Curitiba?
Cabes MC: É um trabalho diário, com mais doação do que arrecadação, mais luta e pouco reconhecimento, porém a cada batalha vencida, renova-se a vontade de perseguir o que se acredita. Como qualquer sonho impossível, quando se faz de coração as luzes em algum momento brilham e aos poucos as portas vão se abrindo. Ficou até poético (risos). É difícil como qualquer outro trabalho artístico, ainda mais de um nicho específico e não estando na “grande mídia” mesmo com 2 discos e 3 clipes lançados. Continuamos buscando concretizar nosso objetivo de espalhar a mensagem que acreditamos, ampliar o público (que cada dia aumenta) e viver de música de forma honesta.

Nei: 5 - Como é o seu processo de composição?
Cabes MC: Procuro não forçar a música, espero ela vir, e aproveito pra embalar quando vêm. Tem músicas que fico meses criando, e tem algumas que simplesmente “surgem” como um relâmpago, e muito depende do instrumental. Muitas idéias também anoto durante o dia-a-dia, particularidades do cotidiano que me fazem refletir, histórias que me emocionam e sentimentos particulares me fazem compor as letras. Já os instrumentais, um bom vinil é sempre inspiração certa pra samplear e construir os BEATS. Cada artista tem um jeito mas procuro deixar a música surgir de forma natural no meu trabalho. Rascunho muitas coisas e as melhores procuro lapidar pra ver se o carvão vira um “diamante”. A gente tenta fazer parecer “fácil” algo que normalmente é um parto.

Nei: 6 - Fale um pouco sobre seu último CD “Pra onde as pessoas vão” de 2011.
Cabes MC: Esse trabalho foi uma fase da minha vida de muitos questionamentos e algumas certezas. Uma delas era o caminho que decidi trilhar com a música. O título é uma afirmação ao que se diz respeito às escolhas de vida das pessoas, é pra onde as pessoas escolhem ir, pra onde elas direcionam a vida delas, “pra onde as pessoas vão”. Tive a felicidade de reunir grandes compositores e músicos que tornaram esse fardo um pouco “mais leve” na questão musical, algumas pessoas que realmente acreditaram no meu processo criativo e confiaram na minha arte. Busquei ser mais “eclético” musicalmente, trazendo arranjos de guitarras, vozes de samba e r&b, violões elétricos, mesclados com o “boom-bap” e os scratchs do RAP. O disco também me abriu portas em alguns estados e em lugares onde não imaginei que poderia chegar, pois apesar de conceitual, tanto musicalmente quando na arte gráfica (idealizada por Celestino Dimas), a essência do ritmo e poesia está ali.

Nei: 7 - Planos para um próximo trabalho? Será que sai um tiragem em vinil?
Cabes MC: Já estou trabalhando no próximo disco, tenho algumas músicas criadas, e várias em processo. Estou mais seletivo neste próximo trabalho, então quero criar muito e escolher as melhores, buscando trazer beatmakers novos e também buscar renovar as alianças musicais que fiz ao longo do meu caminho. Existe uma grande chance das pessoas se surpreenderem com o que está por vir. Estou trabalhando muito na musicalidade do novo projeto, estudando bastante piano e música em geral pra ampliar ainda mais o leque sonoro, com misturas inusitadas, porém equilibrar com a minha própria essência do RAP golden era. Ritmos jazzísticos, afro-brasucas, dubsteps, traps e músicas “graves” sempre foram estilos que apreciei, e quero explorar neste próximo trabalho. Meu sonho é poder fazer um vinil, espero que neste próximo projeto surja esta oportunidade sim! Vamos ver o que o futuro nos reserva...

http://2.bp.blogspot.com
Nei: 8 - Uma última questão: por quê Cabes MC?
Cabes MC: É um apelido da época que gostava de fazer graffitis, cada um na crew tinha um apelido e comigo não foi diferente. Muitos confundem achando que vem de “cabeça” ou como já aconteceu na época de colégio, a diretoria me chamou achando que eu era o cabeça da galera. Na verdade veio da época que era cabeludo, e os amigos me chamavam de “cabelo”. Cortei o cabelo e acabou sendo cortado o apelido para CABES. O “S” no fim foi pro TEG no graffiti ficar mais maneiro rsrsrs. Depende da região, a entonação e a pronúncia vão se variando, e muita gente me chama de “Cábs”, mas a verdade é que é “CabÊs”, o jeito certo de se pronunciar, com a tônica no “ÊS”. MC foi uma junção natural da minha função de rimador nato, e assim ficou até hoje: CABES MC.

Sobre Cabes MC
Na conceituada cena de Hip-Hop made in Curitiba, “feito em Curitiba”, que está na cabeça de quem ouve e aprecia rimas e batidas, Cabes é um dos principais expoentes. MC, beatmaker, produtor, coordenador do selo Track Cheio e produtor cultural, são algumas das atividades que exerce desde que a paixão pelo rap o contaminou no final dos anos 90.
Na estrada percorrida por vários estados, já compartilhou palcos com grandes nomes do cenário nacional: Parteum, Kamau, Marechal, Mamelo Sound System, Elo da Corrente, Max B.O, Speed, Nitro Di, Subsolo, Flora Matos, Rapadura e até o pai do Hip-Hop, Afrika Bambatta.

Pra conhecer um pouco mais sobre Cabes MC visite:
www.cabesmc.com

Para ouvir os últimos sons visite:
www.soundcloud.com/cabesmc

Para ouvir os últimos BEATS visite:
www.soundcloud.com/cabes

E para ver os últimos videoclipes visite:
www.youtube.com/cabescwb

Contato pra shows:
shows@cabesmc.com

E pra conhecer um pouco mais do trabalho que Cabes MC realiza no estúdio Track Cheio visite:
www.trackcheio.com

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