quinta-feira, 25 de julho de 2013

Conexões 02 | Lado A Discos bate-papo com Diego Kloss do De Volta Para o Vinil

Para a segunda matéria da nova seção Conexões uma entrevista feita pelo nosso parceiro Neigmar Vieira, do Lado A Discos, comigo Diego Kloss, do De Volta Para o Vinil.

Foto: Devoltaparaovinil
Nei: 1- Há quanto tempo você compra vinil?
Diego: Os vinis sempre estiveram presentes no meu espaço familiar, meu pai tinha uma coleção pequena de uns 50 vinis e volta e meia colocava alguma coisa para escutarmos.
Mas meu interesse por vinil começou especificamente em 2005, quando resgatei o National Ledsonic 9000 do meu pai, para ouvir alguns vinis que encontrara no sebo.
Minha primeira compra foi o "The Number of the Beast" do Iron Maiden, na época paguei R$ 15,00 em um vinil em excelente estado, hoje infelizmente você não encontra mais vinis no Iron por esse preço.

Nei: 2 - Como você vê o mercado de vinil atualmente em relação a preços e raridades?
Diego: Com meus 7 anos de experiência como colecionador pude constatar que a partir do cenário atual, o mercado do vinil tem duas tendências: aumento nos preços de vinis nacionais e importados de época e a redução do preço de vinis nacionais e importados de lançamento e relançamento.
Mas antes de discorrer sobre as tendências temos que levar em consideração outros fatores importantes: o aumento da procura e a popularização do vinil e o crescimento da compra de vinis importados pela internet (pergunta 8 ).
O aumento da procura e popularização se dá por dois motivos: a qualidade do som do vinil é cientificamente superior e o “saudosismo” (pergunta 6).
Agora tratando das tendências, os vinis nacionais e importados de época estão cada vez mais difíceis de encontrar nos sebos ou com vendedores de vinis. Às vezes você até encontra, mas a um preço absurdo. Acontece também, para alguns álbuns, o efeito dominó, ou seja, um vendedor vai repassando o vinil para o outro com o preço mais elevado. É obvio que chega um determinado momento que o vinil estará com o custo muito alto. Assim ele fica estocado na prateleira do colecionador ou sebo que quer vendê-lo, mas não quer perder dinheiro.
Foto: Canal da Música
A longo prazo, isso infelizmente gera a escassez de material nacional e importado de época. Por exemplo: o álbum do Iron Maiden "The Number of the Beast" Edição nacional que em 2005 eu paguei R$ 15,00 (em bom estado) e que era encontrado em qualquer sebo, hoje você não acha por menos de R$ 40,00", e não em qualquer lugar.
De certo modo, até própria popularização do vinil não foi benéfica para muitos colecionadores, pois quanto mais gente procurando, menos vinis de época teremos no sebos.
Hoje, eu pesquiso muito antes de comprar um vinil usado, procuro me informar sobre o preço em sites de venda, além é claro de garimpar em vários sebos e nas Feiras de Discos, usando a velha e boa pechincha na hora de fechar o negócio.
Quanto à venda de lançamentos e relançamentos em vinil que estão em crescimento, principalmente em sites internacionais, a tendência é gradativamente o preço ser reduzido. A internet te oferece uma abrangente quantidade de álbuns em edições especiais, vinis 180 gramas, além da diversidade de preços e possibilidades de pagamento. No mercado fonográfico atual, várias bandas estão lançando seus álbuns novos em edições em vinil para colecionadores e também relançando álbuns antigos, remasterizados, alguns em vinil colorido ou Picture Disc.
Enfim, a meu ver, os lojistas e vendedores devem estar atentos aos preços dos vinis nacionais e importados de época de forma que eles não se tornem mais caros que os relançamentos. Afinal o bom colecionador vai sempre preferir um edição de época, porém se ela estiver mais cara que um relançamento, vai optar por esse último.
Sobre raridades, não costumo procurá-las, devido as minhas condições financeiras. Quando surge a oportunidade de comprar algum vinil raro, negocio bastante com o vendedor, como foi o caso do primeiro álbum do Scorpions “Lonesome Crow”, que comprei recentemente.

Foto: Diego Kloss
Nei: 3 - O que você pensa desse material novo em 180 gramas? Você acha que esse material veio para ficar?
Privateering (2012) - Mark Knofler - Foto: Diego Kloss
Diego: Como sabemos o disco de vinil comum geralmente tem entre 100 e 120 gramas de peso.
Já um vinil chamado de “alta qualidade” pesa 180 gramas, o que significa que foi utilizado mais material para fazê-lo. O resultado final é um disco mais pesado e de melhor manuseio, sem contar que ele não fica “balançando” enquanto gira no toca-discos, preservando também a vida útil da agulha, além de melhorar a qualidade da audição.
Comprei vários álbuns em 180 gramas, a qualidade do som desses vinis com certeza é bem melhor que os vinis mais leves, porém não devemos esquecer que tudo depende de como o vinil foi gravado.

Nei: 4 - Como é o seu processo de limpeza dos discos?
Diego: Acredito que cada um tem métodos específicos para limpar sua coleção de vinis, ou melhor dizendo, suas próprias regras e produtos utilizados.
Em virtude das diversas opiniões e conselhos que já ouvi por aí, resolvi fazer uma pequena apostila de limpeza e conservação de vinis, capas e agulhas. Os leitores podem conferir essa apostila no meu site: Http://devoltaparaovinil.blogspot.com.br/p/dicas.html
Foto: Diego Kloss
Explicando brevemente, tenho dois métodos básicos: uma para um limpeza mais superficial e rápida (Limpeza de Vinis) e o outra para uma lavagem mais profunda (Lavagem de Vinis).
Consultando diversos colecionadores, vendedores e diversos sites, percebi que apesar de a maioria utilizar diversos produtos químicos na limpeza dos vinis o melhor mesmo e o mais indicado é usar água e sabão. Porém, quando quero apenas fazer uma limpeza rápida utilizo água com álcool isopropílico e um pouco de detergente, misturados num borrifador. Somente esses produtos e nada mais.
Explico com mais detalhes esses dois métodos no meu site.
Agora, é importante ressaltar que condeno o uso da máquina de lavar vinis pelos seguintes motivos:
1. Não tem água corrente sobre o vinil, que é importantíssimo. O "Efeito Físico" de retirada da sujeira para fora do vinil com água, após a passagem do algodão com a solução.
Foto: Diego Kloss
2. Essa máquina espalha um líquido que é retirado de maneira incompleta, via aspiração.
3. Aquela escovação (Que não é com algodão) é prejudicial aos delicados sulcos.
4. Não limpa bem a parte lisa junto ao selo, onde não há gravação.
5. Fica sujeira no disco agarrada ao líquido que não seca bem e deixa uma película extremamente prejudicial na hora de tocar o vinil. A sucção não retira todo o líquido, o que impede o contato agulha-vinil.

Nei: 5 - Muitas bandas e cantores solos estão fazendo tiragens de seus lançamentos em vinil. Como você analisa essa estratégia?
Diego: As gravadoras estão enxergando um novo nicho e perceberam o crescimento da procura por edições em vinil.
Como disse anteriormente, várias bandas e cantores estão lançando seus álbuns novos em edições em vinil de 180 gramas e também relançando álbuns antigos, remasterizados, alguns em vinil colorido ou Picture Disc.
Para nós colecionadores isso é muito bom, pois temos a possibilidade de adquirir os álbuns mais recentes e também os álbuns mais antigos de bandas e cantores consagrados.

Los Hermanos (1999) - Polysom - Foto: Diego Kloss

Nei: 6 - Na sua opinião, quais características do vinil atraem as novas gerações?
Diego: Em tempos que o mp3 impera no universo da música pela praticidade e facilidade de ouvir onde, como e quando temos vontade, bem como o CD está perdendo mercado por piorar a qualidade da música e empobrecer a capa e o encarte do álbum, estamos redescobrindo o que é ouvir um vinil.
O ato de tirar da capa, colocar no toca-discos, posicionar a agulha, ouvir dos dois lados, além de limpar os vinis e admirar as capas de álbuns de bandas consagradas, está voltando entre jovens e adultos.
Foto: Diego Kloss
O prazer está justamente em ouvir o disco inteiro, pois é nesse momento que entendemos a unidade do álbum, reflexo de um momento e época pela qual passava o artista ou banda. Os grandes álbuns foram especiais não só pelas grandes músicas, mas pela coesão, pela história contada e por catalisar momentos, experiências e transformações.
O mp3 simplificou muito as coisas: levamos no celular ou no player, copia em segundos (lembra como era gravar as fitas cassete?) e, principalmente, facilita o acesso a álbuns fora de catálogo, especialmente nesse nosso Brasil onde é muito difícil e caro conseguir determinados títulos. Porém, essa facilidade é perigosa quando banaliza a qualidade da música e o ato de ouvi-la com atenção. Gastar um tempo ouvindo aqueles álbuns considerados históricos é poder desfrutar de um momento onde a inventividade e o gênio humano foram iluminados e deixaram um legado capaz de resistir ao tempo.
Nos tempos atuais do sucesso rápido e esquecimento instantâneo, a sensação que se tem é de que a criatividade ou a vontade das gravadoras de incentivá-la anda em baixa, e cada vez mais as pessoas estão sendo embebidas por "músicas da moda".
Uma boa chance para resgatar esse prazer de explorar um álbum por completo, de sentir o aroma dos vinis, são as novas edições de álbuns famosos de bandas magníficas, além é claro dos álbuns antigos encontrados em sebos e vendedores de vinil. Isso acho que está atraindo o público mais jovem.

Nei: 7 - Quais os objetivos do seu blog: De volta para o vinil?
Diego: O De Volta Para o Vinil surgiu no dia 12 de agosto de 2011 (Dia Mundial do Disco) com um propósito: divulgar e compartilhar informações a respeito de vinis principalmente, e também de outros itens colecionáveis.
Foto: Devoltaparaovinil
Apesar das parcerias com sebos e vendedores e a venda de alguns discos de minha coleção, o blog não tem nenhum fim lucrativo, pelo menos por enquanto. As informações são disponibilizadas gratuitamente para qualquer um que tiver interesse.
A ideia de criar o blog surgiu a partir de sugestões de amigos que sempre diziam "Você sabe tanta coisa sobre os vinis, álbuns e bandas, porque que não publica em algum site".
Como eu percebi que havia interesse nas informações que compartilhava, comecei a elaborar o conteúdo e criei as seções que permeariam as postagens. Foi um trabalho de mais ou menos dois meses até lançar o site e começar a divulgar para os amigos e nas redes sociais.
O nome do blog, como é bem perceptível, é uma homenagem ao filme de 1985 “De Volta para o Futuro”, e como eu iria tratar do retorno do vinil, não hesitei em usar esse nome para o blog.

Nei: 8 - Você compra vinil pela internet? O que acha do processo de compra?
Diego: Com certeza, pelo menos dois por mês, as vezes mais. Algumas vezes compro em sites confiáveis de venda nacionais, como o mercado livre e, outras em sites de venda internacionais, como Amazon e Ebay.
No caso de sites nacionais, nunca tive maiores problemas, isso porque pesquiso muito antes de escolher um vendedor e fechar negócio.
No caso de compras de vinis importados em sites internacionais, sempre tive dúvidas na hora de comprar e queria saber o motivo dos atrasos na entrega das encomendas. Assim resolvi pesquisar sobre o assunto e compartilhar essas informações no meu blog.
Ultimamente, como o dólar está em alta e o nosso “querido” governo brasileiro está tentando sempre criar alguma forma de frear as importações, tenho evitado comprar em sites internacionais.
Os colecionadores que costumam comprar não só vinis, mas outros produtos pela internet em sites como a Amazon, por exemplo, devem estar informados sobre: o que é carga tributária, tributação nas importações, estrutura de armazenamento e distribuição de encomendas no Brasil, tributação de pequenos produtos como o vinil, quando devemos importar, processo de importação, como comprar, riscos da importação e como proceder quando uma encomenda for tributada.
Indico aos leitores a matéria completa que escrevi sobre encomenda de vinis importados:
http://devoltaparaovinil.blogspot.com.br/2012/10/encomendas-de-vinis-importados-pela.html

Nei: 9 - Em termos de prensagem qual é a melhor para você?
Diego: A maioria dos colecionadores prefere, obviamente, a prensagem original de um álbum, mas isso nem sempre é muito fácil e barato de conseguir. Cada gravadora usa um código diferente para as primeiras prensagens. O que muitos não entendem é que quando sai a primeira prensagem original, o artista esta ali no estúdio ajudando na masterização. Na segunda ou nas prensagens em diante, incluindo “primeiras prensagens de outras gravadoras”, isso fica por conta do engenheiro de som e dificilmente o artista está presente, por uma questão geográfica ou física. A qualidade do master utilizada para fazer as prensagens também interfere na qualidade da gravação. Antigamente as masters eram gravadas em fitas de rolo e, como qualquer meio magnético, se deterioram ao longo do tempo. Por isso, muitas vezes gravações posteriores em outros países podem ter sido feitos com cópias da master. Qualquer cópia perde qualidade em relação ao original, é um processo progressivo de perda de qualidade.
Assim, as primeiras prensagens entram na categoria de raridades e, por questões financeiras, eu não procuro muito raridades.
Porém o que me preocupa é que alguns vendedores, principalmente na internet, colocam seus vinis como prensagens originais com preços abusivos. Isto nem sempre quer dizer que são realmente primeiras prensagens. Em alguns casos, já vi sites vendendo vinis que nem foram lançados pela gravadora em vinil, ou seja, vinis “piratas” feitos com prensagem “caseira”, mas prefiro não citar o nome do site.
Enfim, sinceramente eu me preocupo mais se um vinil está em bom estado, se a capa não está riscada ou amassada, ou ainda se a versão é importada, original da época, além é claro se o preço é razoável. A prensagem é última coisa que observo na compra, o que vale na minha opinião, é ter primeiro um bom toca-discos, com um agulha de boa qualidade, cápsula magnética, um bom conversor e caixas de boa qualidade. Tudo isso, aliado a um vinil em bom estado e corretamente limpo, fazem com que qualquer prensagem seja audível. Saber diferenciar entre uma prensagem e outra, prefiro deixar a cargo dos audiófilos, só quero mesmo curtir meu vinil e o momento nostálgico que ele representa.
Para quem quer identificar as prensagens indico o site da DISCOGS: http://www.discogs.com

Nei: 10 - Você acha que o vinil tem uma vida longa pela frente? Por quê?
Diego: Com certeza. Em um mundo cada vez mais digital, os discos de vinil, que marcaram época, retornam ao mercado com força total e também impulsionam a venda de toca discos e agulhas.
Segundo Bruna Borelli, em uma matéria publicada na revista Isto É Dinheiro, somente no primeiro semestre de 2012, a venda de discos de vinil cresceu 14,2% em relação ao ano passado entre os americanos (dados divulgados pela consultoria Nielsen Soundscan, especializada na indústria fonográfica). Nem mesmo os álbuns digitais, tão em voga nesta década, apresentam crescimento superior ao de vinil, ficando em torno de 13,8%.
O Brasil, como já era de se esperar, vai seguindo os mesmos passos. Porém, o preço dos vinis nacionais só não baixam por causa da taxação brasileira, que eleva em 70% o preço final, a maior carga tributária do mundo no setor.
Também é importante lembrar que a ligação com o design é outro motivo para os discos de vinil voltarem à tona. Sem contar os toca-discos que, novos ou antigos, se tornaram também um item de decoração.
Enfim, o fato é que os vinis e os todos os produtos e acessórios que permeiam esse mundo estão se popularizando cada vez mais e depois de 20 anos fora do mercado, dominado pelos CDs, hoje em livrarias, o vinil já convive lado a lado com os CDs e ganha cada vez mais espaço.

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