Selecionados 02 | The Devil You Know (2009) - Heaven And Hell

Ano: 2009
Gravadora: Rockfield Studios/Rhino Records
Gênero: Heavy Metal e Doom Metal

Para muita gente, o melhor vocalista do Black Sabbath é Ozzy Ousborne e, ao lado do ‘Príncipe das Trevas”, temos no line-up  Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward que, juntos, gravaram pérolas como “Black Sabbath”, “Paranoid”, “Sabotage” e “Sabbath Bloody Sabbath”. Álbuns que na época causaram estranheza e aversão, mas que são considerados o marco inicial do Heavy Metal e Doom Metal.
Porém, é inegável que a fase com Ronnie James Dio e Vinnie Appice é, sem sombra de dúvida, a mais produtiva e bem-sucedida da história do Black Sabbath. O que dizer dos clássicos ”Heaven And Hell”, “Mob Rules” e “Dehumanizer” e a voz potente e marcante de Dio, com o peso dos riffs de Iommi e o ritmo sempre seguro de Butler e Appice. Mas hoje não estamos aqui para falar do Black Sabbath, Rainbow, da carreira solo do Ozzy ou do Dio (banda).
No post Selecioandos de hoje, falarei de outro grande clássico do Heavy Metal e Doom Metal: “The Devil You Know” (2009) da banda Heaven and Hell.
Depois da turnê de reunião com a formação original, Iommi e Butler se encheram de só tocar a fase Ozzy e, sedentos por criar material inédito, voltaram a se reunir com Dio e Appice para criar outro grande clássico, só que desta vez, a banda resolveu se chamar Heaven and Hell.
Heaven and Hell foi uma colaboração musical dos membros do Black Sabbath Tony Iommi e Geezer Butler, juntamente com ex-membros Ronnie James Dio e Vinny Appice. Os quatro membros do Heaven and Hell foram registrados numa turnê em conjunto como Black Sabbath da formação "Mob Rules" (1982). Em 2006, enquanto o quarteto reunificado gravou três novas canções para o álbum compilação "The Dio Years", eles decidiram partir para uma turnê de 2007-2008. Esta foi facilitada pelo fato do membro fundador do Black Sabbath, Ozzy Osbourne, ter saído em uma turnê solo durante esse tempo.
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Devido à projeção e continuação da formação original (Iommi, Butler, Bill Ward e Osbourne) e em 2006 a introdução da formação no Hall da Fama do Rock and Roll, Iommi (proprietário do nome Black Sabbath) decidiu chamar o grupo de Heaven and Hell. A ideia foi tomada a partir do primeiro álbum gravado pelo Dio no Sabbath, Heaven and Hell. Para isso, gravaram no Rockfield Studios (País de Gales) “The Devil You Know”. Pelo nome já causa arrepios e se olhar a capa então, dá até pesadelos.
A capa do álbum é uma adaptação de uma pintura por Per Øyvind Haagensen intitulada “Satanás”. A obra de arte apresenta os números 25 e 41.  Geezer Butler declarou em uma entrevista que os números referem-se ao versículo da Bílbia Mateus 25:41 , que trata com o Juízo Final , onde "Depois o Rei dirá aos que estiverem à Sua esquerda: ´Afastem-se de mim malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos (...)’" . Ele também explicou que o nome do álbum é uma referência ao nome da banda. Ao finalizar a arte da capa, a banda ficou entre dois, tiveram dificuldade de tomar uma decisão final. A capa alternativa apresenta o logotipo tradicional diabo Black Sabbath.
Desde a volta do Black Sabbath com a formação dos já clássicos "Heaven and Hell", "Mobby Rules" e "Dehumanaizer", era óbvio que tão logo seríamos brindados com um novo álbum de inéditas daqueles que são uma referência para todos os adoradores do Metal. Se em 2007 já pudemos sentir esse gostinho com o lançamento da compilação “The Dio Years”,
"The Devil You Know", com lançamento previsto para 28 de abril de 2008, pode ser visto como uma luz no fim do túnel para aqueles que estavam à espera de um grande álbum para a década. Sem soar repetitivo, o quarteto que atende pelo nome de Heaven and Hell, ressuscita os melhores momentos da fusão do Hard Rock com o Heavy Metal, trazendo também o ar carregado do Doom Metal. Sobra originalidade e competência para esses músicos que dispensam qualquer apresentação. 


Capa alternativa.
Melancólico, sombrio e macabro são boas definições para a sequência de faixas de The Devil You Know. É impressionante como o Dio consegue cantar com maestria e identidade e, também, é assustador o quanto Tony Iommi, Geezer Butler e Vinnie Apice destilam riffs e batidas sólidas que compõem um excelente álbum que, com toda a certeza, caiu nas graças do fiel público do bom e velho Black Sabbath.
Apesar de não ser um disco tão complexo como Filosofem do Burzum por exemplo, com estruturas intrincadas e variadas mudanças climáticas e rítmicas e letra extremamente filosófica, "The Devil You Know" exige, para ser corretamente e completamente apreciado e compreendido, um certo esforço do ouvinte. A atmosfera sombria e introspectiva que caracteriza e define toda a discografia do Black Sabbath e o Heaven and Hell, requer sem dúvida, tempo e contemplação.
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O álbum abre com “Aton & Evil”, um Doom Metal arrastado com riffs ao bom estilo Sabbath na fase Dio. Apelidada de trilha sonora do Apocalipse é pesada e cadenciada na medida certa. A bateria, apesar de econômica, é extremamente eficaz e precisa. As harmonias e os acordes dissonantes do mestre Tony Iommi são a principal marca do grupo, pois a guitarra deixa de ser um mero instrumento para se tornar um veículo de seus sentimentos e de sua apurada sensibilidade musical. Iommi comunica sem dizer uma única palavra e seus solos são belos e muito bem encaixados, não havendo exageros e tampouco exibicionismo.
Bible Black” dispensa comentários, a faixa já circulava pela internet antes do lançamento e já causava empolgação e ansiedade nos apreciadores do Heavy Metal. Com uma introdução fantástica de violão e voz, muito na linha do álbum Heaven and Hell (1980), virou o single do álbum. O clipe lançado posteriormente, descreve de uma forma "infantil" o real sentido da música, isto é, o clipe é uma animação que começa tranquila e vai se tornando sombria aos poucos. Assim como a melodia da música, até o anjo tornar-se um demônio. O refrão "You're reading from the Bible Black" ou “você está lendo a partir da Bíblia Negra”, brava a voz de Dio em determinado momento da composição. “Bible Black” nos faz refletir sobre conflitos internos do ser humanos e uma busca por uma solução para um problema especifico. A fuga acaba se tornando a melhor opção, porém é um caminho sem volta. Há uma tentativa de reerguer-se, porém já é tarde demais e o anjo se transforma em um demônio. A canção é intensa, drástica e melancólica, possui solos marcantes e originais, uma verdadeira obra-prima. Na verdade, uma aula de como arquitetar a progressão climática e dramática de uma canção, partindo da ambientação inicial até chegar ao clímax e ao desenlace. Dio impõe entonações e impostações diferentes para cada verso. A suavidade e a dramaticidade aveludadas da primeira estrofe contrastam com o vocal grave e rasgado – também aveludado e nunca hiperbólico – dos bridges, onde a beleza e o alcance da voz de Dio atingem plenitude.



 Já “Double the Pain”, possui uma introdução de baixo e um riff transbordando excelente modernidade. Essa música pode ser explicada como um misto da guitarra de Iommi com os trabalhos solos do Geezer no GZR. Um Hard Rock ao bom estilo do que foi melhor produzido na década de 90, melancólico e nervoso sem parecer repetitivo. De andamento mais acelerado e com um peso paquidérmico, “Double The Pain”, em certos instantes, se aproxima do até do Thrash Metal. Vinny Apice, como de costume, se mantém discreto e não arrisca. A banda transita com rara desenvoltura e competência entre o peso e as passagens mais melódicas, dois importantes elementos, que para outros estilos parecem antagônicos e inconciliáveis, mas que fazem parte da construção da linguagem musical desse álbum.
Em contrapartida, “Rock and Roll Angel” tem uma uma linha de um Hard Rock Melancólico, chegando a lembrar os melhores momentos de guitarristas como Jerry Contrell no Alice in Chains, Mike Hickey e Gary Jenning no Cathedral, Tom Morello no RATM, provando ser Tony Iommi uma referência para todos os bons guitarristas na ativa. Em determinado momento, vem uma calmaria e na sequência um solo esmagador. O final é ainda mais surpreendente com um arranjo acústico e um solo ao melhor estilo do violão clássico.
“The Turn of the Screw” é caracterizada por mais um riff inicial ao bom estilo Sabbath na fase Dio. Um Hard Rock na linha oitentista.
 “Eating the Cannibals” possui uma levada de Blues Rock mas com a cara do Heavy Metal dos anos 1980.
A introdução de “Follow the Tears” parece a preparação para um ritual de Sabbath, a trilha sonora para um rito de magia negra, mostrando toda a originalidade na guitarra de Tony Iommi.
“Neverwhere” parece ter saído do "Mobby Rules" ou do "Heaven and Hell". A essa altura você já está sentindo uma angústia terrível provocada pelo clima sombrio e apocalíptico do álbum.
“Breaking Into Heaven” é o final arrasador, pois por mais de seis minutos ouvimos aqui uma síntese da união de Dio, Iommi, Butler e Apice, provando ser uma das melhores bandas da geração antiga do Heavy Metal.


Heaven & Hell at Sauna Open Air Metal Festival. Foto: Eetwartti
O desempenho do Dio é mais variada do que quase qualquer outro álbum em sua carreira. Dio baseia-se em suas décadas e décadas de experiência cantando em diferentes formas para projetos distintos, com uma apresentação impecável e inspiradora em “The Devil You Know”. Há muitos momentos do álbum que realmente exigem uma entrega nos agudos e Ronnie nunca tropeça, conseguindo bater notas altas melhor do que qualquer vocalista de bandas de Power Metal. Suas melodias vocais, mesmo nos versos, soam completamente diferente dos trabalhos anteriores, assim cada linha é memorável de alguma forma.
Foto: Chapman Baehler
Iommi oferece uma série de riffs mais elétricos do que qualquer coisa desde Dehumanizer e Tyr, conseguindo fundir com o baixo agressivo de Geezer. Muitas vezes eu ouço um álbum onde o baixo ou segue a guitarra ou é simplesmente inaudível. Geezer é tão paciente e auto-confiante como músico que possui profundidade e personalidade. 
Vinny Appice é um baterista muito mais talentoso do que nos dias de "Mob Rules". Seu amor quase narcisista de preenchimentos está presente como nunca, temperado por algumas das sensibilidades rítmicas do Heavy Metal que aprendeu em seus anos ao lado de Ronnie Dio. 
A banda comandou todo o processo de composição, gravação e produção do álbum. Ele é, canção por canção, uma aula dos mestres para a nova geração do Heavy Metal. Além disso, demonstra que para evoluir nem sempre é preciso uma grande mudança. Olhar para o passado e resgatar um certo tradicionalismo, palavra muitas vezes demonizada e confundida com conservadorismo e denominada como “fazer mais do mesmo”, transforma-se em um silencioso grito de resistência, mediante um cenário dominado pela efemeridade e pela relação cada vez mais reducionista e descartável com a música. Não se trata simplesmente do confronto entre a tradição e a modernidade e sim do embate entre a integridade e o duradouro contra a mediocridade e o efêmero.
Pena que em novembro de 2009, Dio foi diagnosticado com câncer de estômago. O prognóstico foi inicialmente favorável, no entanto, a banda havia planejado continuar em atividade após um breve período de descanso para o cantor. Eles programaram uma turnê com o Iron Maiden na Europa a partir de julho de 2009, mas a turnê foi cancelada no dia 4 de maio, devido a problemas de saúde de Dio. Ele morreu em 16 de Maio de 2010 às 07h45.


Foto: Chapman Baehler
Os três membros realizaram um último show do Heaven and Hell, como uma homenagem a Dio, no festival High Voltage em 24 de Julho de 2010, com dois vocalistas convidados: o ex- vocalista do Black Sabbath e Deep Purple, Glenn Hughes, e o cantor norueguês Jørn Lande, do Masterplan. O ex-Pantera e vocalista Phil Anselmo também fez uma breve aparição na música “Neon Knights”. Todas as receitas do evento foram para a “Ronnie James Dio Stand Up and Shout Cancer Fund”. O álbum póstumo ao vivo “Neon Nights: 30 Years of Heaven & Hell” foi lançado em 16 de Novembro, gravado na Alemanha no festival Wacken Open Air em 30 de Julho de 2009.


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Em março de 2011, depois da dissolução do Heaven & Hell, Appice juntou Dead Devil Hill, juntamente com o ex-Pantera e baixista Rex Brown. Em novembro de 2011, Iommi e Butler reativaram o Black Sabbath ao lado do vocalista original, Ozzy Osbourne, anunciando planos para uma turnê mundial. O álbum resultante foi "13" lançado em junho de 2013.

Integrantes
Ronnie James Dio - vocal
Tony Iommi - guitarra
Geezer Butler - baixo
Vinny Appice - bateria
Scott Warren - teclados (turnê, offstage)

Produção
Produção: Dio, Iommi, and Butler
Produção adicional: Mike Exeter
Gravação: Mike Exeter
Mixagem: Wyn Davis
Assistência: Mike Sutherland e Adam Arnold
Masterização: Stephen Marcussen
Direção de Arte e Design: Masaki Koike
Ilustração: Per Øyvind Haagensen
Fotografia: Chapman Baehler
Gravura: Johann Koch

Músicas
Side 1
1. "Atom and Evil"
2. "Fear"
3. "Bible Black"

Side 2
1. "Double the Pain"
2. "Rock and Roll Angel"
3. "The Turn of the Screw"
4. "Eating the Cannibals"

Side 3
1. "Follow the Tears"
2. "Neverwhere"
3. "Breaking into Heaven"

Side 4 - Ilustração

Fotos do vinil






Foto: Diego Kloss

Dedicado à Ronnie James Dio